Dosagens Hormonais em Ginecologia e Obstetrícia
© 1993
 
Ericsson Linhares
 
Docente livre da UFRJ
 
 
VIII –  HORMÔNIO TIREOTRÓFICO  (TSH),   TRI-IODOTIRONINA  (T3) E  TIROXINA  (T4) 
  

    É de conhecimento antigo uma correlação entre tireóide e função sexual, e ainda, que seus distúrbios são significativamente mais frequentes no sexo feminino.  Daí a importância prática de estar o clínico atento a esta área pois, tanto o hipo quanto o hipertireoidismo são suscetíveis de causar distúrbios menstruais e esterilidade, além da galactorréia típica do hipotireoidismo.  Ignora-se se a influência manifesta-se por efeitos centrais ou periféricos das taxas de tiroxina.  

    A síntese do hormônio tireoidiano depende basicamente de um suprimento adequado de iodo na dieta e do estímulo do TSH hipofisário.  Na tireóide o iodo liga-se ao ácido aminado tirosina.  Monoiodotirosina e diiodotirosina combinam-se para formar tiroxina (T4) e triiodotironina (T3).  Estes compostos iodados são parte da molécula de tireoglobulina, o colóide que serve como depósito do hormônio tireoidiano.  O TSH promove um processo proteolítico que resulta no lançamento de iodotironinas na corrente sanguínea.  No sangue o hormônio tireoidiano circula ligado a uma proteína transportadora (TBG).  Os estrogênios produzem uma elevação da TBG e, portanto, a função tireoidiana é afetada pela gravidez ou medicação estrogênica continuada.  Com o aumento da capacidade TBG, a manutenção de um estado eutireoidiano depende do conceito de que a tiroxina livre é mantida em limites normais.  

    Embora T4 seja secretado 20 vezes mais que T3, é T3 o responsável pela maioria, senão todas, as funções tireoidianas no organismo.  T3 é 3 a 4 vezes mais potente que T4.  Cerca de um terço do T4 secretado diariamente é convertido nos tecidos periféricos, particularmente fígado e rins, em T3, e cerca de 40% é convertido na forma inativa, T3 reverso.  São duas as razões para que T3 seja mais ativo que T4: os receptores celulares para hormônio tireoidiano tem cerca de 10 vezes mais afinidade por T3, e as proteínas sanguíneas ligam T4 mais fixamente que T3.  

  
  

Valores Normais   
  

    A atual avaliação da função tireoidiana dispensa antigas medidas (PBI, captação de T3, índice de T4 livre).  Usamos o método enzima-imuno-fluorimétrico, automatizado, para dosagem de TSH (dito ultra-sensível), T3, T4 e T4 livre.  

    O hormônio tireotrófico pode eventualmente não ser titulável em adultos, e assim a faixa de normalidade vai de 0 a 6 microUI/ml, com um valor médio de 2,5 microUI/ml.  Os demais exibem as seguintes amplitudes:  

Triiodotironina (T3):  80 a 200 ng/100ml.  

Tiroxina (T4):  4,5 a 11,5 mcg/100ml.  

Tiroxina livre (T4L):  0,8 a 2,0 ng/100ml.  

  
  

Uso Propedêutico  
  

    Considerando-se que T3 tem maior atividade, poder-se-ia julgar que a medida de T3 seria melhor avaliação da função tireoidiana.  Todavia, devido à fonte periférica de T3, seus níveis não refletem diretamente a secreção tireoidiana.  Além disso, níveis de T3 podem ser normais a despeito da presença de bócio com elevado TSH e baixo T4.  O controle do TSH hipofisário é exercido principalmente por T4.  Os hormônios tireoidianos regulam o TSH suprimindo o hormônio hipotalâmico de liberação (TRH), bem como reduzindo seus receptores na hipófise anterior.  A medida de TSH e T4 oferece melhor avaliação da função da tireóide.  

    No hipertireoidismo T3 aumenta proporcionalmente mais que T4; às vezes somente  
T3 está aumentado, e esta Tireotoxicose por T3 é frequente em áreas com deficiência de iodo.  Por diminuição da conversão T4 em T3 em doentes graves com hipertireoidismo, T4 pode estar aumentado isoladamente.  Assim, uma única dosagem de T3 não diagnostica hipertireoidismo.  

    A dosagem do TSH é particularmente útil no diagnóstico do hipotireoidismo primário,  
a mais frequente modalidade de hipofunção da tireóide.  No hipotireoidismo inicial, sem sintomas aparentes, é possível encontrar-se um TSH elevado com T4 normal e que somente progressivamente se reduz (hipotireoidismo sub-clínico).  Tais casos respondem bem ao tratamento, evitando-se o aparecimento de bócio e o hipotireidismo franco.  

    Na gravidez podem surgir dificuldades de diagnóstico de doenças da tireóide, devido à semelhança de alguns sintomas comuns ao hipotireoidismo (fadiga, letargia, prisão de ventre) e ao hipertireoidismo (irritabilidade, ansiedade, taquicardia, aumento da tireóide).  Para melhor situar o problema o quadro abaixo informa as variações apresentadas:  

  

 

   Dosagem Gravidez Normal   Hipotireoidismo      Gravidez + 
 Hipotireoidismo
 Hipertireidismo      Gravidez + 
 Hipertireoidismo
    T4 livre   N           D         D         A        A
    T4 total A          D        D/N         A        A
     TSH          N          A         A         D        D
 
     N – normal;  D – diminuído;  A – aumentado

                                                       QUADRO  X  
  
  

    Por último há de estabelecer-se a utilização da dosagem de TSH nos casos de hiper e hipotireoidismo.  Ela é particularmente útil no diagnóstico do hipotireoidismo primário, a mais frequente modalidade de hipofunção tireoidiana.  Concorda-se que o aumento do TSH é o mais sensível indicador de insuficiência tireoidiana primitiva, compensada, ou não, isto é, sem ou com hipotireoidismo clínico.  Porém, melhor que a dosagem isolada é a utilização de prova de estímulo, permitindo identificar as diferentes modalidades de disfunção da tireóide.  

 

Prova de Estímulo com Hormônio Liberador de Tireotrofina (TRH)   
  
  
    Utiliza-se TRH Roche (1 ampola de 200 microgramas), por via endovenosa, colhendo-se amostras de sangue basal, e decorridos 30 e 60 minutos da injeção.  Não utilizar anti-coagulantes (dosagens no soro).  Em pessoas normais os níveis mais elevados surgem na primeira meia hora, com aumento de 10 a 30 microUI/ml.  Podemos simplificar o uso propedêutico no quadro abaixo:  


 

Diagnóstico Causa  T3, T4 TSH Basal Resposta
  Hipotereoidismo Primário  Patologia  Tireoidiana    D (*) A Exagerada
  Hipotireoidismo Secundário  Patologia  Hipofisária D D Subnormal
  Hipotireoidismo Terciário Patologia Hipotalâmica D D Normal (menor)
Hipertireoidismo Doença de Graves ou Bócio Nodular Tóxico  N ou A D Subnormal
 
      N – normal ;  D – diminuído ; A – aumentado. 

     (*)  Lembrar que níveis de T3 podem ser normais em alguns casos de hipotireoidismo inicial ou ainda sem manifestações clínicas.  
  

QUADRO  XI
 
 
 
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Estriol, HPL Bibliografia
 
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