Dosagens Hormonais em Ginecologia e Obstetrícia
© 1993
 
Ericsson Linhares
 
Docente livre da UFRJ
 
 
IV – PROLACTINA
  

    A prolactina tem papel inequívoco na secreção láctea.  No momento é difícil apontar um efeito na esteroidogênese ovariana, mas é possível que o ovário seja um órgão efetor tanto quanto a mama.  Há possibilidade de que participe na regulação da água e metabolismo eletrolítico.  Tal foi sugerido, por exemplo, no controle do volume de líquido aminiótico, no qual seus níveis são cerca de 50 vezes maiores que os da circulação materna e fetal.  

    A molécula da prolactina apresenta uma série de semelhanças com as moléculas do hormônio de crescimento e do hormônio lactogênico placentário, sugerindo que resultaram da evolução de um ancestral comum.  São cadeias peptídicas simples, com 2 a 3 pontes di-sulfídicas e sem grupo glicídico.  Os outros dois possuem 191 ácidos aminados, tendo a prolactina 198.  
  
   

Valores Normais  
  

    Há um ritmo diário na secreção da Prolactina, com suas taxas elevando-se durante o sono, mesmo em cochilos durante o dia.  Tal comportamento não interfere com a dosagem, feita na parte da manhã, sem obrigatoriedade de jejum absoluto.  Para fugir de influências emocionais há quem sugira dupla colheita, com intervalo de 30 minutos, e a dosagem quer das duas amostras, quer de um “pool” preparado com partes iguais de soro (não utilizar plasma).  A prolactina estabiliza-se à puberdade, e seus valores mais elevados no sexo feminino são atribuídos à influência dos estrogênios.  A prolactina pode eventualmente deixar de ser titulável e assim admite-se a faixa de normalidade na mulher adulta de 0 a 20 ng/ml.  

   Não há variações consistentes da prolactina durante o ciclo menstrual, porém preferimos a dosagem entre 21o e 23o dias, para fazê-lo juntamente com a da progesterona, visando avaliação de possível significado em casos de esterilidade.  Logicamente em pacientes amenorréicas tal preocupação não tem lugar, mesmo porque neste caso não há interesse prático na dosagem de progesterona.  
  
   

Uso Propedêutico  

    A dosagem de prolactina pode ser útil em diversas condições de hiperprolactinemia, desconhecendo-se qualquer patologia atribuível a baixos valores.  

   

1 –   Roteiro diagnóstico na Galactorréia  

    Para situar o binômio galactorréia-hiperprolactinemia podemos estabelecer preliminarmente os seguintes dados:  

1o ) pode haver galactorréia tendo sido ultrapassado o momento da elevação da prolactina: em   apenas 70% encontramos a hiperprolactinemia;  

2o ) na amenorréia com hiperprolactinemia, apenas cerca de 30% mostram galactorréia;  

3o ) na amenorréia-hiperprolactinemia-galactorréica, cerca de 30% tem micro-adenoma hipofisário.  

   
    O melhor roteiro para investigação da galactorréia é descrito por Davajan & Kletzky (1978):  
 

  

ROTEIRO  DIAGNÓSTICO  DA  GALACTORRÉIA
 
 

 

    Notar que a dosagem inicial é a do hormônio tireotrófico, afim de afastar o hipotireoidismo, causa frequente de galactorréia.  A grande preocupação, porém, é o adenoma hipofisário, e a história menstrual não auxilia, pois mulheres com menstruações regulares podem ter galactorréia provocada por tumor; e ainda, casos de galactorréia por adenoma podem mostrar níveis normais de prolactina, embora presentes oligomenorréia ou mesmo amenorréia.  Desta forma a dosagem de prolactina não é conclusiva e deve ser associada à investigação radiológica.  A lembrança do adenoma hipofisário obriga a um acompanhamento prolongado, pois seu aparecimento pode ser surpreendido somente ao cabo de anos decorridos do problema inicial.  Considerando a seriedade do quadro é imprescindível a confirmação do resultado: repetição do exame após duas semanas e afastamento das causas iatrogências de hiperprolactinemia (tranquilizantes, anti-hipertensivos do grupo serpasol, pílulas anti-concepcionais).  
  
   

2 – Diagnóstico de Distúrbios Menstruais, Amenorréia e Esterilidade por   
      Hiperprolactinemia  

   O aumento da prolactina pode ocorrer na ausência de adenoma hipofisário, por distúrbio de seu mecanismo regulador.  À hiperprolactinemia associam-se, por vezes, oligo e/ou hipomenorréia, esterilidade, e mesmo, para alguns autores, a síndrome do ovário policístico.  O significado prático desta correlação é a possibilidade do tratamento de problemas da esfera ovariana com a correção farmacológica dos níveis de prolactina.  

   Pinto & cols. (1982) analisando dosagens de prolactina e progesterona em casos de esterilidade, investigam as hipóteses etiopatogênicas, considerando os efeitos da hiperprolactina ao nível do ovário, da hipófise, e do hipotálamo, e concluem que a questão central, a anovulação, não é consequência do aumento da prolactina.  Sugerem que ambos os distúrbios seriam produzidos por uma disfunção hipotalâmica primitiva.  


  
  

PROVAS  FUNCIONAIS  DA  PROLACTINA
 

    As provas funcionais da prolactina envolvem o estímulo ou a inibição, e são utilizadas para identificar o adenoma na hiperprolactinemia, ou comprovar a secreção nula após cirurgia ou radioterapia; ou Síndrome de Sheehan (necrose isquêmica da hipófise); ou, por fim, quadro de sela túrcica vazia.  

    Entretanto, os adenomas secretantes de prolactina, antes que verdadeiras neoplasias, são uma hipertrofia de células lactotróficas secundária a um desequilíbrio PIF-PRL, condição análoga à observada na gravidez normal.  Daí a ineficiência das provas dinâmicas que, em alguns casos, podem dar respostas normais a despeito da presença do tumor.  
  
    Para conhecimento, todavia, podemos alinhar as provas abaixo.  
  
  

Prova Droga Dose Via Colheitas Local de Ação
Estímulo  1. Sulpiride 100 mg  i.m. 0' 60' 120' 180' Hipotálamo
2.  TRH 0,2 mg i.v 0' 15' 30' 60' Hipófise
Inibição  3. L-Dopa  500 mg  oral 0' 60' 120' 180' Hipotálamo
4. Bromo- 
 ergocriptina
2,5 mg oral 0' 120' 240' 24h Hipotálamo
 

Produtos comerciais utilizados:  

1. Sulpiride: Equilid – Modulan – Dogmatil (ampola de 100 mg).  
Resposta normal:  elevação superior a 3 vezes o valor basal.  

2. TRH:  “TRH Roche” – ampola de 0,2 mg (200 microgramas).  
Resposta normal:  elevação superior a 5 vezes o valor basal.  

3. L-Dopa: Larodopa Roche (comprimidos de 500mg).  
Resposta normal:  diminuição superior a 50%, por vezes comprovada somente na última amostra.  

4. Bromo-ergocriptina:  Parlodel Sandoz (comprimidos de 2,5 mg)  
Resposta normal:  diminuição superior a 50%, por vezes comprovada na manhã seguinte. 

 
 
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FSH, LH, Estradiol Progesterona
 
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