V – PROGESTERONA
A despeito
de duas pregnenolonas dotadas de escassa atividade biológica, não
é usual falar-se de progestogênios, e sim de progesterona
(no singular) como hormônio titular absoluto da função
luteínica. No processo da esteroidogênese a progesterona
é o primeiro esteróide hormonal de maior significação,
originando-se caracteristicamente no corpo amarelo e na placenta.
A produção diária de progesterona é da ordem
de 4 mg na fase folicular e de 30 mg na fase luteínica. É
uma diferença relevante a ponto de permitir o uso dos níveis
de progesterona na segunda metade do ciclo como evidência presuntiva
de ovulação. Atribuem-se à progesterona numerosas
funções, todas relacionadas diretamente ao preparo progestacional
do endométrio e, na ocorrência de gravidez, ao transporte
ovular, à nidação, e, sobretudo, ao bloqueio da contração
muscular uterina, responsável pela quiescência do útero.
A progesterona
é a pregnenodiona, esteróide com 21 átomos de carbono,
uma dupla ligação (4:5) e duas funções cetona
em C3 e C20. Ocupa posição privilegiada na esteroidogênese.
Ela e sua antecessora, a pregnenolona, são submetidas à 17-alfa-hidroxilação
para dar origem às duas linhagens (delta 4 e delta 5, respectivamente)
de formação dos esteróides sexuais, androgênios
e estrogênios, nesta ordem.
Valores Normais
Na fase
folicular a progesterona (sérica ou plasmática) tem valor
médio de 1 ng/ml, elevando-se após a ovulação
até uma taxa média de 10 ng/ml, mantida por 7 a 10 dias.
Uma única dosagem entre o 21o e o 23o dias do ciclo é suficiente
para defini-la. Não ocorrendo gravidez ela declina aos níveis
basais cerca de 4 dias antes da menstruação, e por esta razão
deve evitar-se a dosagem tardia (no momento mais recomendável para
biópsia de endométrio). Na gravidez a progesterona
eleva-se acompanhando a gonadotrofina coriônica até 8 a 10
semanas, quando decresce momentaneamente, para em seguida elevar-se novamente,
o que traduz a origem placentária em substituição
ao corpo amarelo gravídico. Na primeira elevação
atinge 20 a 30 ng/ml, e quando volta a subir, a normalidade traduz-se por
valores acima de 40 ng/ml, ao mesmo tempo que se desfaz o pico gonadotrófico.
A partir daí a ascenção é regular, alcançando
números entre 160 e 200 ng/ml, no final da gestação.
Uso Propedêutico
São
quatro as possibilidades de utilização prática da
dosagem de progesterona, duas em cada área, ginecológica
e obstétrica.
1 – Diagnóstico
de Ovulação
Melhor
que o emprego das repercussões periféricas (biópsia
de endométrio, colpocitologia funcional, temperatura basal), a medida
da progesterona responsável por tais efeitos é, sem dúvida,
o melhor índice da presença de um corpo amarelo atuante.
Isto levaria ao diagnóstico indireto de ovulação,
embora saibamos da possibilidade (rara) da luteinização do
folículo íntegro com o óvulo enclausurado.
Sugerimos
a dosagem de prolactina associada à de progesterona, afim de identificar
possível hiperprolactinemia. Quando esta ocorre, com níveis
reduzidos de progesterona, tem lugar a hipótese de que a anovulação
decorra de causa hipotalâmica, e a terapêutica capaz de reduzir
a prolactina resulta muitas vezes em correção do distúrbio,
permitindo propiciar gravidez em alguns casos de esterilidade primária.
2 – Diagnóstico
de Insuficiência Luteínica
A secreção
insuficiente de progesterona pode traduzir-se por: a) esterilidade;
b) infertilidade; (abortamentos de repetição); c)
ciclomastopatias; d) tensão pré-menstrual (retenção
hídrica, enxaqueca, irritabilidade); e) distúrbios
menstruais (hemorragia funcional uterina). Devemos aceitar como diagnóstico
de insuficiência luteínica um teor de progesterona plasmática
inferior a 5 ng/ml entre 21o e 23o dias do ciclo.
Não
esquecer que em condições normais, na segunda metade do ciclo,
a atuação do estradiol é de certa forma modificada
pela progesterona; quando esta diminui, os estrogênios, atuando sem
contraposição, assumem maior significado étio-patogênico
por um “hiperestrogenismo relativo”. Este posicionamento é
particularmente relevante nos problemas da mama e na hemorragia disfuncional
uterina.
3 – Prognóstico
da Ameaça de Abortamento
Devemos
inicialmente rever a fisiopatologia do denominado Abortamento Endócrino.
Existe o abortamento dependente de insuficiência luteínica,
isto é, problema anterior à gestação presente
e, em geral, associado à questão de infertilidade (abortamento
de repetição). Um corpo amarelo trabalhando “no limite”
(às vezes com auxílio medicamentoso) pode permitir a prenhez,
porém não ter capacidade para sustentá-la. Outro
tipo é o decorrente da inadequada transposição da
função luteínica à placenta, admitindo duas
variedades. Há de aceitar-se uma condição primária
de incapacidade da síntese placentária, e outra, secundária
a qualquer patologia alcançando o concepto como um todo. Logicamente
em todos os casos do primeiro grupo, e na variante primária do segundo,
a insuficiência luteínica é fator causal preponderante
e, em consequência, é válida não apenas a detecção
de níveis insuficientes de progesterona no prognóstico da
ameaça de abortamento, como o uso de medicação supletiva.
Sugerimos
em tais casos a dosagem simultânea de HCG, pois o comportamento típico
dos dois hormônios no período entre 8 a 12 semanas traduz
melhor o julgamento da normalidade. Quando se desfaz o fenômeno
apical da gonadotrofina coriônica a progesterona deverá estar
ultrapassando 40 ng/ml. A persistência de teores elevados de
HCG (acima de 20.000 miliUI/ml) ao mesmo tempo que a progesterona é
incapaz de elevar-se tem o significado de mau prognóstico.
A despeito
do inequívoco papel fisiológico da progesterona na manutenção
da gravidez, é curioso verificar que os autores divergem no julgamento
dos resultados descritos em vários artigos. A aceitação
do conceito acima exposto permitirá um uso mais racional das duas
dosagens. Além disso o emprego abusivo de gestágenos
sintéticos (não progesterona, note-se bem) em todo e qualquer
caso de abortamento, com resultados obviamente duvidosos, ocasionou um
descrédito injusto aos méritos terapêuticos do hormônio.
E, mais que isto, levou o pessimismo ao uso propedêutico da dosagem
de progesterona. Entretanto, quando empregada nos casos realmente
indicados, tem valor inconteste, nunca esquecendo que melhor informação
é obtida mediante as dosagens seriadas.
4 – Prognóstico
da Ameaça de Parto Prematuro
A ameaça
de parto prematuro, devido à dramaticidade da condição,
exigindo providências imediatas, relega a segundo plano qualquer
exame complementar. Mas, as filigranas da fisiopatologia do trabalho
de parto, embora mal conhecidas, admitem a possibilidade de um papel significativo
aos baixos teores de progesterona. Além de Csapo com o trabalho
de toda uma vida dedicada a ressaltar o papel da progesterona no bloqueio
da contração uterina, Johnson & cols., desde 1979, defendem
a importância etiológica da insuficiência luteínica,
advogando a medicação supletiva com caproato de 17-alfa-hidroxi-progesterona,
capaz em muitas observações de interromper a ameaça
de parto prematuro. Claro que, se investigados, os níveis
plasmáticos de progesterona estão diminuídos, porém
em termos práticos a terapêutica é instituída
indistintamente. |