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II – GONADOTROFINA
CORIÔNICA (HCG)
A dosagem
da gonadotrofina coriônica deve ser estudada em primeiro lugar porquanto,
sendo um hormônio denunciador da presença de tecido trofoblástico,
atende ao diagnóstico diferencial de alguns quadros clínicos,
particularmente à primeira consulta, para definir a área
ginecológica ou obstétrica.
A gonadotrofina
coriônica é uma glico-proteína, e como tal consiste
de duas sub-unidades proteicas (alfa e beta) unidas a um núcleo
glicídico. É sabido que compartilha a sub-unidade alfa
com FSH, LH e TSH, sendo a sub-unidade beta a detentora da especificidade
imunológica. Afim de evitar-se a reação cruzada
com LH no método RIA, foi estabelecida a dosagem da beta-gonadotrofina
coriônica. O método Enzima Imunoensaio Fluorimétrico
que utilizamos atualmente emprega dois anti-soros monoclonais, dosando
a molécula inteira com um mínimo de interferência das
demais glico-proteínas hormonais.
A dosagem
de HCG cria um problema na definição dos níveis
inferiores, inexistente para hormônios de presença normal
obrigatória. Ainda assim, em alguns casos (prolactina, hormônio
tireotrófico) apela-se ao recurso de estender o limite inferior
da normalidade até zero. Isto é, admite-se que na dosagem
destes dois hormônios, eventualmente, um adulto normal possa ter
teores não tituláveis. O aceitar-se as taxas obtidas
com a observância estrita do método, sem outras considerações,
resultou na descrição de valores tituláveis de beta-HCG
em vários carcinomas além dos coriomas; depois, em mulheres
não grávidas; e, finalmente, mesmo em homens normais.
Existe
evidentemente uma dificuldade a ser superada, pois os números mais
baixos, na faixa de menor precisão do método, não
podem ser tomados simplesmente como se apresentam. Antes de alargar
exageradamente a possibilidade da presença de HCG, devemos definir
um nível capaz de traduzir em termos clínicos (e não
puramente decorrente de metodologia laboratorial) a existência real
de tecido trofoblástico em atividade. Tal nível, propomos,
será de 1.000 miliUI/ml, a partir do qual, na quase totalidade dos
casos, há de fato uma fonte ativa de gonadotrofina coriônica.
É óbvio que, para atingir este ponto, foram ultrapassados
níveis tituláveis anteriores, que podemos determinar em alguns
casos. Entretanto, considerando a rapidez da ascenção
dos níveis de HCG na gravidez normal, é preferível
a repetição da dosagem sempre que o valor estiver abaixo
de 1.000 miliUI/ml. 48 horas são prazo suficiente para que
tal valor numérico seja ultrapassado de modo significativo, colocando-nos
ao abrigo de imaginar-se uma secreção de HCG não existente.
Tal prazo pode ser utilizado sem inconvenientes na prática, mesmo
para situações de urgência em que se requeira a definição
segura da presença de HCG, como é o caso, mais comum, da
prenhez ectópica.
Valores Normais
Em princípio
a presença de HCG pode ser determinada a partir de 10 dias da ovulação,
isto é, antes de instalada a amenorréia ou, medindo-se em
tempo de gestação, na 4a semana. Embora ocasionalmente
tenhamos conseguido tal objetivo, por vezes com números inferiores
a 1.000 miliUI/ml, confirmado o diagnóstico em titulações
ascencionais subsequentes, isto não deve ser entendido como sempre
possível.
Uma tentativa
de balizar os valores mais significativos oferece os números abaixo
em miliUI/ml:
4a semana –
1.000
5a semana –
3.000
6a semana –
6.000
7a semana – 20.000
Da 8a
à 10a semana transcorre o “fenômeno apical” de HCG, quando
a taxa eleva-se a 50.000 ou mesmo 100.000 miliUI/ml. Depois
de 90 dias de amenorréia estabelece-se uma amplitude entre 5.000
e 15.000 miliUI/ml. Qualquer valor abaixo deste limite é
indicativo de anormalidade. Um segundo pico de HCG, menor, é
descrito na 36a semana, de significado desconhecido. A descida do
primeiro pico é correlacionada à elevação da
progesterona placentária, e tal cruzamento traduz a normalidade
neste momento crítico após a 12a semana.
Devido
a seu lento metabolismo a gonadotrofina coriônica persiste titulável
até cerca de 15 dias após a morte intra-uterina do ovo, ou
depois de um parto normal a termo, e esta particularidade assume grande
importância clínica em certos casos de abortamento.
Por vezes uma gravidez irremediavelmente condenada ainda oferece níveis
tituláveis de beta-HCG. Um dado de experiência que podemos
sugerir é aceitar o limite inferior de 4.000 miliUI/ml como o mínimo
compatível com gestação evolutiva depois da 6a semana.
Abaixo deste limiar há mau prognóstico e a interrupção
é a regra, decrescendo as taxas em determinações seriadas
até ao zero.
Uso Propedêutico
A dosagem
de HCG é de utilidade propedêutica nos seguintes casos:
1 – Diagnóstico
precoce da gravidez
Mercê
da peculiaridade de exibir teores ascencionais que duplicam a cada 72 horas,
a determinação de gonadotrofina coriônica no sangue
constitui o melhor parâmetro laboratorial para diagnóstico
da gravidez, ressalvadas as observações que fizemos a propósito
dos valores baixos encontrados na gestação em início.
Quatro são as indicações
principais:
1 – Razões
de ansiedade por parte da cliente ou do clínico;
2 – Necessidade de
terapêutica ou procedimento semiótico capazes de lesar uma
gestação ignorada;
3 – Diagnóstico
diferencial de: amenorréia, hemorragia uterina, tumor abdominal;
4 – Avaliação
da idade gestacional, dado muitas vezes relevante em ocorrências
mais tardias de uma gestação complicada.
FIGURA 2 – Velocidade
de crescimento de HCG na gravidez inicial
(segundo Caldwell, 1984).
2 – Diagnóstico
da Prenhez Ectópica
O emprego
simultâneo da dosagem de HCG com a ultra-sonografia permitiu estabelecer-se
o conceito de “zona discriminatória”: na 6a semana, para um nível
de 6.000 a 6.500 miliUI/ml, identifica-se o saco gestacional intra-uterino.
Com HCG superior a 6.500 miliUI/ml a presença ou ausência
de saco gestacional intra-uterino é um elemento conclusivo.
Com HCG inferior a 6.000 miliUI/ml a presença do ovo no útero
significa gestação tópica (ameaça de abortamento),
enquanto sua ausência não é conclusiva. Muitas
vezes os níveis de HCG na prenhez ectópica são mais
baixos, o que não invalida o raciocínio acima.
ROTEIRO DIAGNÓSTICO
DA PRENHEZ ECTÓPICA
3 – Diagnóstico
de Morte Ovular
A não
existência de gravidez e a morte ovular equivalem-se na impossibilidade
de obter-se teor titulável de HCG. Entretanto, há uma
possibilidade de erro a ser evitado. Considerando a metabolização
lenta da gonadotrofina coriônica, as taxas sanguíneas levam
dias a desaparecer (15 dias após parto normal) e assim, ocasionalmente,
podem ser encontrados teores tituláveis em casos de morte do ovo,
inevitável ou mesmo já ocorrida. Valores abaixo de
5.000 miliUI/ml implicam em acompanhamento seriado. Abaixo de 1.000
miliUI/ml tem significado nulo, e autorizam intervenção se
indicada.
4 – Propedêutica
Hormonal dos Coriomas
As neoplasias
trofoblásticas gestacionais e os coriomas no sentido mais amplo
caracterizam-se pela produção de HCG em proporção
direta à massa do tumor. Os níveis de HCG refletem
o curso clínico e a terapêutica, cirúrgica e/ou quimioterápica.
Dosagem de HCG no Diagnóstico
dos Coriomas
1. Com qualquer nível
nos coriomas teratomatosos.
2. Com níveis
superiores a 400.000 miliUI/ml.
3. Dificuldades possíveis:
a) dúvida
em teor mal definido face ao fenômeno apical;
b) teor
inexpressivo em mola benigna parcialmente descolada.
Dosagem de HCG no Seguimento
dos Coriomas
1. Rotina: dosagens
com 7, 15, 30 e 60 dias, comprovando-se a anulação da taxa
de HCG a partir da 3a amostra.
2. Indicações
para tratamento:
a) título
estável entre duas determinações semanais;
b) título
que se mostra em elevação;
c) título
(qualquer) persistente após 8 semanas.
5 – Prognóstico
da Ameaça de Abortamento
Afirma-se
que a taxa de abortamentos espontâneos na espécie humana é
da ordem de 20%, e muitas vezes tem-se a gestação oculta,
isto é, apenas referida pela paciente como menstruação
mais abundante após relativo atraso menstrual (abortamento sub-clínico).
A dosagem de HCG permite identificar tais casos. |