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VII – ESTRIOL
E HPL
Unidade
feto-placentária é uma denominação apropriada
para explicar a origem de hormônios com a participação
obrigatória do feto. Entretanto, não se deve generalizar
o conceito, criado por Diczfalusy (1962) tão somente para explicar
o mecanismo de uma via peculiar de síntese do estriol. A participação
da placenta no metabolismo dos estrogênios faz-se mediante a aromatização
de androgênios, não por ela sintetizados (como o faz o ovário),
e sim provenientes das supra-renais materna e fetal, sobretudo esta última.
A DHEA de origem materna transforma-se em androstenodiona, por sua vez
convertida em estrona (E1) e estradiol (E2). A DHEA de origem fetal,
atingindo a placenta sempre 16-alfa-hidroxilada, dá nascimento diretamente
ao estriol (E3). Assim o estriol é o hormônio mais representativo
da gravidez em sua segunda metade, por espelhar condições
de maturidade e vitalidade fetais.
O hormônio
lactogênico placentário (HPL) é um polipeptídio
secretado de modo autônomo pela placenta (não depende de precursores
maternos ou fetais) e sua produção acompanha paralelamente
o crescimento do peso da placenta. No terceiro trimestre da gestação,
ultrapassados os problemas relativos a abortamento e parto prematuro, substitui
usualmente a medida da progesterona como índice de normalidade placentária.
Seus valores não se alteram com o repouso ou a deambulação;
não mostram ritmo circadiano; tem meia-vida curta, refletindo o
estado atual da placenta.
RELAÇÕES
DA ESTEROIDOGÊNESE SUPRA-RENAL FETAL E
A PLACENTA
Valores Normais
A curva
do estriol total no sangue de gestantes normais exibe uma elevação
lenta a princípio, quando em termos numéricos é suplantado
pela progesterona. A partir da 20a semana a ascenção
é mais rápida; na 30a semana é ultrapassada a cota
de 200 ng/ml, ampliando-se até cerca de 400 ng/ml no termo.
Foi descrito um pico do estriol na 36a semana, com regularidade exagerada
em artigo de Buster (1976) e não confirmado posteriormente.
O aspecto terminal da curva de estriol total é de uma elevação
mais lenta até o parto, ou de um platô a partir da 38a semana.
Não se descreve em condições fisiológicas uma
queda ante-parto do estriol, à semelhança do que ocorre com
o HPL.
De início
os teores sanguíneos do HPL são baixos, da ordem de ng/ml.
A partir do 2o mês, quando atinge 2.000 ng/ml, pode ser medido em
microgramas. Verifica-se que há um crescimento aproximado
de um micrograma por mês, alcançando no termo uma faixa de
normalidade em torno de 9 mcg/ml. A sua terminação
é descrita em platô após a 38a semana, porém
por vezes encontramos uma pequena queda nos 15 dias que antecedem o parto.
Nunca
esquecer, todavia, que em investigação de níveis hormonais
na grávida, mais importante que os números absolutos é
o comportamento observado em medidas sucessivas a intervalos compatíveis
com cada caso. Para gonadotrofina coriônica, progesterona,
estriol e HPL impõe-se a dosagem seriada para melhor julgamento
do quadro que se pretende avaliar.
Uso Propedêutico
As dosagens
simultâneas de estriol e HPL são utilizadas para acompanhamento
da Gravidez de Alto Risco (GAR).
Não
tem lugar aqui esmiuçarmos o condeito da GAR, e apenas alertar para
o fato de que a situação é conhecida porquanto já
foi diagnosticada; o problema agora é saber-se das condições
do feto para extraí-lo no momento oportuno, se indicado. Há
uma relação direta entre o nível de estriol e o peso
do feto, trazendo um dado significativo ao estabelecimento do momento próprio
para uma intervenção eletiva.
É
irrelevante pretender distinguir comportamentos peculiares do estriol em
cada uma das principais condições de risco fetal, isto é,
diabetes gestacional, iso-imunização materno-fetal, crescimento
intra-uterino retardado, hipertensão e gravidez, prenhez serotina,
etc. Não é possível documentar-se um mecanismo
fisiopatológico específico a cada exemplo. Em todos
o estriol diminuído é o termo final do sofrimento fetal crônico,
e não se justifica um roteiro diagnóstico diferente para
cada um deles. Desde que se aceita o mérito propedêutico
da medida do estriol, a única questão a ser resolvida é
como combiná-lo com os procedimentos alternativos.
É
possível alinhar os seguintes procedimentos com o mesmo propósito:
dados clínicos (comprimento do útero, circunferência
abdominal, peso materno), ultra-sonografia (cefalometria, volume fetal,
placenta, dopplerfluxometria), cardiotacografia, e exame do líquido
amniótico. Encontra-se na bibliografia uma série de
esquemas, colocando em diferentes posições, mas sempre presente,
a dosagem de estriol. É totalmente descabida a atitude maniqueísta
dos que pretendem opor as dosagens de estriol e HPL aos processos eletrônicos,
com preferência por estes últimos. Os níveis
hormonais traduzem, por assim dizer, uma “normalidade crescente”, e seu
caráter ascencional em medidas seriadas permite que se deixe progredir
a gravidez até o momento oportuno de intervir. Os exames devem
ser semanais a partir da 30a semana, amiudando-se, ou não, em seguida,
na dependência da evolução de cada caso.
A associação
da medida do HPL, cujos níveis correlacionam-se diretamente ao peso
da placenta, deve ser feita de rotina, porém sua maior importância
está nos casos em que há redução do volume
ou da perfusão placentária: crescimento intra-uterino retardado
e gravidez com hipertensão arterial. Para facilitar o enquadramento
dos resultados, Spellacy (1970) criou o conceito de “zona de risco fetal”,
entendendo-se como tal valores de HPL inferiores a 4 mcg/ml depois da 30a
semana.
A gravidez
serotina é uma condição de difícil diagnóstico,
e foi mencionado que uma das vantagens de firmar-se precocemente o diagnóstico
da gestação (dosagem de HCG) é estabelecer-se com
rigor o seu início. Muitos obstetras intervém quando
atingida presumidamente a 42a semana. A pós-maturidade verdadeira
é acompanhada de senescência placentária e insuficiência
progressiva capaz de por em risco a vida fetal. A taxa de HPL reflete
o problema e pode assim fazer a distinção entre simples gestação
aparentemente prolongada e pós-maturidade real indicativa de intervenção.
Um valor significativamente baixo de HPL é capaz de predizer corretamente
mais de 60% dos casos de pós-maturidade. |