III – GONADOTROFINAS
HIPOFISÁRIAS E ESTRADIOL
As duas
gonadotrofinas hipofisárias, hormônio folículo-estimulante
(FSH) e hormônio luteinizante (LH), em equilíbrio dinâmico
com o estradiol (E2), estabelecem os caminhos fisiológicos através
dos quais se define a normalidade da função menstrual.
As gonadotrofinas
hipofisárias são glico-proteínas, de metabolismo pouco
conhecido e, excretadas na urina, conservam a atividade biológica.
Produzidas sob estímulo hipotalâmico mediado pelo hormônio
de liberação (GnRH), renovam-se no sangue em período
de 12 a 24 horas. O estradiol é, do ponto de vista biológico,
o principal estrogênio. Trata-se de um fenolesteróide,
isto é, apresenta um anel fenólico (o primeiro ou A) em sua
cadeia de 18 átomos de carbono. Suas duas hidroxilas situam-se
em C3 e C17. Esta segunda assinala-se em seu nome mais completo:
17-beta-estradiol.
Somente
a introdução dos métodos de competição
permitiu a dosagem sanguínea isoladamente de FSH e LH. Do
mesmo modo obteve-se a titulação dos estrogênios no
sangue. Todavia, dado o hábito adquirido do tempo das dosagens
urinárias, é frequente a procura de titulação
simultânea dos três estrogênios principais (estrona,
estradiol e estriol). Não existe indicação real
para uso rotineiro da tríplice dosagem. Os problemas da área
ginecológica resolvem-se tão somente com a dosagem do mais
atuante, o estradiol. Por outro lado, na gravidez, toda importância
clínica é assumida pelo estriol, dado obrigatório
nos protocolos da gestação de alto risco.
Valores Normais:
Em razão
da dinâmica do ciclo menstrual os níveis de FSH, LH e Estradiol
exibem variações significativas, por vezes em períodos
de 24 a 36 horas. O caráter de normalidade será interpretado
na dependência do momento adequado da colheita.
|
FSH
|
LH |
ESTRADIOL |
| Fase Folicular |
5 – 20 miliUI/ml |
5 – 30 miliUI/ml |
20 – 120 pg/ml |
| Fase Ovulatória |
10 – 30 “ |
40 – 200 “ |
120 – 400 “ |
| Fase Luteínica |
0 – 10 “ |
5 – 20
“ |
60 – 260 “ |
| Pré-menopausa |
40 – 200 “ |
40 – 200 “ |
5 – 20
“ |
A avaliação
dos três hormônios faz-se mediante dosagens com amostras colhidas
no 12o, 14o e 16o dias do ciclo, e são pertinentes os seguintes
comentários:
1o ) O LH é
sempre maior que o FSH, à exceção do período
pré-menstrual, quando o estradiol desce a taxas mínimas e
o FSH eleva-se primeiro no preparo do ciclo seguinte;
2o ) O ponto
máximo do pico ovulatório do LH dura apenas 24 a 36 horas,
porém o achado de valores significativos acima de 30 miliUI/ml em
qualquer das três amostras é indício suficiente de
ciclo bifásico;
3o ) Na fase
luteínica plena FSH e LH tem seus níveis mais baixos, sendo
que eventualmemte o FSH pode ser não titulável;
4o ) Qualquer resultado
com FSH maior que LH é sugestivo de insuficiência do aparelho
folicular, a ser investigada;
5o ) A queda
do estradiol após o pico pré-ovulatório é variável;
e não assume maior expressão, assim como a retomada de níveis
maiores na fase luteínica, quando volta a cerca de dois terços
do valor máximo no pico, e assim mantem-se por sete a dez dias,
antes da descida pré-menstrual.
Uso Propedêutico
Não
há qualquer uso para estas dosagens em clínica obstétrica.
Em Ginecologia são duas as aplicações principais.
1 – Diagnóstico
de Ovulação
Existe
mais de uma dezena de recursos visando ao diagnóstico da ovulação,
todos utilizando elementos indiretos, pois somente a laparoscopia obviamente
pode visualizá-la. As dosagens de FSH, LH e Estradiol nos
dias indicados permitem identificar os picos respectivos e concluir-se
se há condições para ovulação.
2 – Diagnóstico
do Hipo-estrogenismo
Na dependência
do grau em que é atingida a produção de estrogênios,
as manifestações clínicas irão desde distúrbios
menstruais tipo oligo e/ou hipomenorréia até a amenorréia.
Nos limites da disfunção hormonal pura e simples consideramos
o caso de mulher que ultrapassou a menarca e apresenta tais sintomas como
queixa principal justificadora da consulta. O melhor roteiro diagnóstico
é ainda o de Kletzky & Davajan (1975), e nele baseamos nossas
considerações.
ROTEIRO DIAGNÓSTICO
DO HIPO-ESTROGENISMO
A resposta
à progesterona pode traduzir-se por sangramento mínimo e
confirma-se com nível de estradiol superior a 50 pg/ml. Encontra-se
em dois terços das amenorréias.
Uma única
dosagem de LH superior a 30 miliUI/ml faz o diagnóstico de Síndrome
de Ovário Policístico. Tais pacientes em geral mostram
algum grau de obesidade e/ou hirsutismo, e devem ser então exploradas
no sentido da Disfunção Androgênica.
A normalidade
do LH caracteriza a Disfunção Hipotálamo-Hipofisária,
ocorrendo com frequência após uso prolongado de pílulas
anticoncepcionais. Determinar em seguida a prolactina. Sendo
normal, a conduta pode limitar-se a provocar sangramento com progesterona
a cada três meses. Existindo aumento de prolactina deve ser
investigada a presença de tumor hipofisário.
O termo
Insuficiência Hipotálamo-Hipofisária é utilizado
quando a prova da progesterona é negativa. Assim, a repetição
periódica do teste nas pacientes com Disfunção permite
identificar o agravamento, pois esta é a evolução
habitual do problema. Mesmo sem hiperprolactinemia deve ser afastado
o tumor hipofisário, mantendo-se um controle periódico.
O quarto
grupo é o da Insuficiência Ovariana Primária, sabidamente
de mau prognóstico, mulheres em geral estéreis, e que apenas
podem utilizar terapêutica estrogênica substitutiva à
semelhança do climatério.
Devemos
complementar tal quadro com uma corrigenda relevante: na amenorréia
as gonadotrofinas podem ser “normais” em termos. Melhor será
afirmar que são “tituláveis”, porém com característica
denunciadora da síndrome, isto é, exibem níveis estáveis
em determinações sucessivas, sem a periodicidade própria
do ciclo normal. E podemos associar uma distinção altamente
prática de acordo com o predomínio de uma ou outra.
Na insuficiência folicular pura e simples as taxas de FSH são
mais elevadas que as de LH (importando menos os números absolutos,
dentro da faixa de normalidade); na Disfunção Androgênica
a situação inverte-se, e aqui o predomínio do LH ultrapassa
o limite superior do normal.
PROVAS FUNCIONAIS
DAS GONADOTROFINAS HIPOFISÁRIAS
Duas provas
são indicadas na tentativa de localizar a origem hipotalâmica
ou hipofisária dos problemas ligados à hipofunção
gonadotrófica.
A . Prova
com Hormônio Liberador de Gonadotrofinas (GnRH)
Objetivo – Avaliação
da secreção de FSH e LH na hipófise anterior.
Medicação
– Gonadorelina ou HRF (Ayerst) de 0,5 mg (ampola única).
Procedimento –
1. Colheita de sangue basal, de manhã (não necessariamente
em jejum); 2. Administração do medicamento por
via intra-muscular, dose única; 3. Colheitas
de mais três amostras de sangue, 30, 60 e 120 minutos após.
Dosam-se FSH e LH nas quatro amostras.
Respostas – Embora
com variações individuais, observa-se uma elevação
das gonadotrofinas superior a três vezes o valor basal, maior para
o LH, logo aos 30 minutos, enquanto o FSH tem máximo com 60 minutos.
Após 3 horas voltam aos níveis originais. A resposta
é discreta antes da puberdade, intensificando-se gradualmente com
a menarca.
Interpretação
– Uma resposta normal em mulher com problemas de disfunção
ou insuficiência hipotálamo-hipofisária denotaria etiologia
hipotalâmica, pois a glândula responde. A despeito da
fundamentação correta, o teste é apontado como insatisfatório
em muitos casos, observando-se, por exemplo, respostas normais em casos
de tumores hipofisários.
Precauções
– A despeito da dose maior, a via intramuscular (que não prejudica
os níveis da resposta) coloca-nos ao abrigo de manifestações
de intolerância observáveis com a via endovenosa. Assim,
não há maiores cuidados para realização da
prova.
B . Prova com Citrato
de Clomifene
Objetivo – Avaliação
da secreção do hormônio liberador de gonadotrofinas
(GnRH) no hipotálamo. O citrato de clomifene é um agente
não esteróide, atuando por inibição competitiva
ao estradiol endógeno no hipotálamo. Assim, bloqueia
o “feed-back” negativo normal e provoca o lançamento de GnRH.
Medicação
– Serofene (Serono), comprimidos de 50 mg (frascos de 20 comprimidos).
Procedimento – Após
a colheita de sangue basal a paciente ingere dois comprimidos por dia (100
mg) durante cinco dias. No 6o dia é feita uma segunda colheita,
dosando-se em ambas, FSH e LH.
Respostas – Em mulheres
normais há uma duplicação das taxas de gonadotrofinas,
com predomínio do LH. Não é obrigatória
a ocorrência de ovulação para a prova ser considerada
positiva.
Interpretação
– A normalidade da resposta traduz integridade de hipotálamo e hipófise.
A ausência de resposta denotaria problema essencialmente hipotalâmico,
pois este é o sítio farmacológico do efeito da droga.
À semelhança da anterior, esta prova muitas vezes não
oferece respostas conclusivas de real valor clínico.
Precauções
– A paciente deve ser prevenida da possibilidade de ovulação
e gravidez. Os efeitos colaterais mais frequentes são ondas
de calor, distensão abdominal, náuseas, vômitos, cefaléa,
desaparecendo com a suspensão do medicamento. |