VI – CORTISOL ,
TESTOSTERONA E 17-CETOSTERÓIDES
Parte II
Uso Propedêutico
Representando
extremos opostos dos desvios da função córtico-supra-renal,
a Síndrome de Cushing e a Insuficiência Córtico-supra-renal
fazem fazem parte da relação das Síndromes Endócrino-Ginecológicas.
Se associarmos a Disfunção Androgênica, com sua duplicidade
étio-patogênica (supra-renal e ovariana), teremos os três
problemas para cujo diagnóstico concorrem os três hormônios
agora estudados. Entretanto, dos dois primeiros apenas apontaremos
o passo inicial no diagnóstico posto que, uma vez identificados,
tais casos passam à órbita do endocrinologista. Apenas
da disfunção androgênica trataremos mais amplamente.
1 – Diagnóstico
da Síndrome de Cushing
A Síndrome
de Cushing mostra elevação acentuada dos níveis de
cortisol plasmático, por vezes acima de 500 ng/ml, precedida de
uma perda do ritmo normal com valores próximos de manhã e
à tarde. Entretanto, em alguns pacientes, tais sinais podem
deixar de existir, e na suspeita clínica utiliza-se uma Prova de
supressão com dose única de Dexametasona. A paciente
ingere 1 mg do medicamento (2 comprimidos de 0,5 mg de Decadron ou Deronyl)
na hora de deitar (entre 22 e 24 horas) e dosa o cortisol às 8 horas
da manhã seguinte. Normalmente o cortisol desce abaixo de
50 ng/ml e algumas vezes deixa mesmo de ser titulável. Na
Síndrome de Cushing não há resposta e valores da ordem
de 200 ng/ml são comuns.
Excluída
a Síndrome de Cushing iatrogênica, frequente pelo uso de corticóides,
mas de fácil identificação, são três
as variedades principais: tumor funcionante de supra-renal, produzindo
cortisol de modo autônomo; tumor funcionante de hipófise produzindo
ACTH (Doença de Cushing); e Síndrome de ACTH ectópico
(mais comumente carcinoma pulmonar). A distinção faz-se
com novas provas de supressão associadas à dosagem do ACTH,
porém isto ultrapassa os limites do interesse da Ginecologia.
2 – Diagnóstico
da Insuficiência Córtico-supra-renal
A insuficiência
da córtex supra-renal traduz-se na diminuição acentuada
dos níveis de cortisol plasmático e 17-CS urinários
em sua forma primária (Doença de Addison). Na insuficiência
secundária tais valores podem permanecer nos limites inferiores
do normal, e tem lugar uma Prova de estímulo com dose única
de ACTH. A paciente recebe 1 mg de dexametasona (oral) à
meia-noite afim de suprimir o ACTH endógeno e a secreção
de cortisol. Na manhã seguinte é feita a dosagem do
cortisol em três amostras: basal, e 30 e 60 minutos após injeção
intramuscular de ACTH sintético (Cortrosina Organon, 1 ampola de
0,25 mg). Normalmente o valor basal está suprimido abaixo
de 50 ng/ml; nas demais amostras as taxas elevam-se até 300 e mesmo
450 ng/ml. Na insuficiência não há resposta,
particularmente na Doença de Addison. A insuficiência
secundária pode apresentar resposta mínima, porém
sempre subnormal.
A distinção
da insuficiência córtico-supra-renal em primária e
secundária é importante: na primeira a deficiência
de cortisol é acompanhada da deficiência de aldosterona; na
secundária porém, esta permanece normal. Além
disso, a insuficiência secundária pode representar apenas
uma exteriorização de problemas múltiplos ao nível
da hipófise. Por tais motivos, com suas óbvias implicações
terapêuticas, esta segunda etapa da propedêutica hormonal deve
ser delegada ao endocrinologista.
3 – Roteiro Diagnóstico
da Disfunção Androgênica
A disfunção
androgênica caracteriza-se por um aumento dos 17-CS urinários
acompanhado de níveis variáveis de testosterona e cortisol
segundo as diversas variantes étio-patogênicas. Estas
são essencialmente seis e podem ser rotuladas a partir das glândulas
de origem:
Córtex-supra-renal:
1. Neoplasia virilizante.
2. Hiperplasia virilizante
(Síndrome Adreno-Genital).
3. Supra-renal hiperandrogênica.
Ovário:
1. Ovário
hiperandrogênico.
2. Doença
policística (Síndrome de Stein-Leventhal).
3. Neoplasia virilizante.
Não
desconhecemos as seis variantes teóricas do bloqueio da corticosteroidogênese,
porém circunscritas ao objetivo prático que nos propomos,
cogitamos apenas da mais frequente (da 21-hidroxilase) responsável
pela hiperplasia reticular, causa da Síndrome Adreno-Genital.
Os conceitos
de supra-renal e ovário “hiperandrogênicos” não são
mera conveniência didática e existem realmente, a partir de
limites puramente biotipológicos, alcançando expresssão
maior nos quadros do que se pode denominar Hirsutismo Constitucional, quando
muitas vezes coexistem as duas origens. A supra-renal hiperandrogênica
é compatível com função ovariana normal, mantidos
os ciclos bifásicos e a fertilidade.
O ovário hiperandrogênico
caracteriza-se por amadurecimento folicular inadequado, denunciado por
secreção menor de estradiol e maior de androstenodiona e
testosterona. Ao contrário da anterior esta modalidade de
Hirsutismo Constitucional acompanha-se de manifestações de
insuficiência folicular como retardo puberal, oligo/hipermenorréia,
e fertilidade reduzida. O grau mais avançado do ovário
hiperandrogênico, é claro, configura a Doença Policística
do Ovário quando existe a anovulação, secreção
não cíclica de estradiol e progesterona, ocasioando a amenorréia
característica da Síndrome de Stein-Leventhal.
De há
muito (1975) sugerimos que o ponto de partida é a dosagem de 17-CS
urinários, e descrevemos como primeira orientação:
1. 17-CS acentuadamente
elevados
- Neoplasia virilizante
da supra-renal.
2. 17-CS medianamente
elevados
- Hiperplasia virilizante
da supra-renal
3. 17-CS moderadamente
elevados
- Supra-renal hiperandrogênica
- Ovário hiperandrogênico
- Doença Policística
do ovário
- Neoplasia virilizante
do ovário
A tentativa
de utilizar o fracionamento cromatográfico dos 17-CS não
ofereceu resultados conclusivos. Em apenas um caso a cromatografia
fornece um dado realmente patognômico: o predomínio absoluto
dos beta-17-CS (fração III), traduzindo a hipersecreção
predominante de dehidroepiandrosterona na neoplasia córtico-supra-renal
virilizante. Entretanto, em tais casos a elevação marcante
dos 17-CS, superior a 50 mg/ml, aliada a recursos semióticos de
imagem (ultra-som, raios X), faz o diagnóstico. Consideramos
17-CS medianamente elevados na faixa de 25 a 50 mg/24h, e moderadamente
quando inferiores a 25 mg/24h, algumas vezes no Hirsutismo Constitucional
(sobretudo quando exclusivamente supra-renal) apenas ultrapassando o limite
superior do normal.
ROTEIRO DIAGNÓSTICO
DA DISFUNÇÃO ANDROGÊNICA
Os reparos
numéricos para os 17-CS servem apenas à tentativa de ordenar
as dificuldades. Como foi dito, no Hirsutismo Constitucional podem
coexistir as origens supra-renal e ovariana, e os 17-CS em geral são
inferiores a 25 mg/24h. Na neoplasia virilizante de ovário
eventualmente os 17-CS podem estar acima de 25 mg/24h, na proporção
em que a testosterona ultrapassa 4 ng/ml (limite inferior dos níveis
masculinos normais).
O roteiro
acima permite a identificação dos casos de disfunção
androgênica com uso de três dosagens rotineiras. Devemos
assinalar que Brenner (1979) afasta dosagens menos usuais, como da proteína
transportadora de testosterona (SBG), de dihidrotestosterona, de testosterona
livre, por nada acrescentarem à investigação propedêutica.
Sabemos ainda que as taxas elevadas de 17-hidroxi-progesterona (e pregnanotriol
urinário) e de dehidroepiandrosterona (e seu sulfato) servem à
caracterização do quadro de bloqueio próprio da hiperplasia
virilizante da supra-renal, mas ambas as alterações decorrem
da diminuição do cortisol, e nada mais lógico que
a medida deste para tal fim.
Com finalidade
de auxiliar na distinção dos quadros menos típicos
foram propostas diversas provas simples ou combinadas de supressão
e/ou estímulo da supra-renal e/ou do ovário. Seria
fastidioso alongar críticas a respeito, porém sabemos que
nenhuma atinge por inteiro o objetivo a que se propõe. A última
tentativa, de Abraham (1976), faz supressão da supra-renal com dexametasona
e dosa, antes e depois, cortisol, dihidrotestosterona, sulfato de dehidroepiandrosterona,
e androstenodiona. Excluído o inconveniente de utilizar dosagens
que fogem ao nosso padrão mínimo de rotina, a idéia
central é válida. Ou seja, a resposta à supressão
atinge particularmente aos androgênios de origem supra-renal, e esse
dado pode ser útil. Limitando aos três hormônios
básicos por nós estudados, podemos distribuir seu comportamento
face à supressão do seguinte modo:
PROVA DE
SUPRESSÃO NA DISFUNÇÃO ANDROGÊNICA
| |
Basal |
Pós-supressão |
Característica
predominante |
| Test. |
17-CS |
Cortisol |
Test. |
17-CS |
Cortisol |
| 1.
Neoplasia virilizante Supra-renal |
> 50 |
N |
N |
NR |
R |
NR |
17-CS  |
| 2. Hiperplasia virilizanteSupra-renal |
25 - 50 |
D |
N |
R |
R |
NR |
Cortisol |
| 3. Supra-renal Hiperandrogênica |
< 25 |
N |
N |
R |
R |
NR |
Hirsutismo
Constituicional |
| 4. Ovário Hiperandrogênico |
< 25 |
N |
< 4 |
R/2 |
R |
NR |
Hirsutismo
Constitucional |
| 5. Doença Policística
do Ovário |
< 25 |
N |
< 4 |
R/2 |
R |
NR |
Amenorréia
Obesidade |
| 6. Neoplasia virilizante
do Ovário |
< 25 |
N |
> 4 |
NR |
R |
NR |
Testosterona  |
Verifica-se
que cortisol e testosterona tem comportamento constante e a diferença
reside na resposta dos 17-CS, daí a prova que propomos:
Prova de Supressão
com Doses Prolongadas de Dexametasona
Dosagem
de 17-CS na urina de 24 horas, antes e depois da paciente ingerir 3 mg/dia
(6 comprimidos de Decadron ou Deronyl de 0,5 mg) durante 5 dias.
A segunda urina é colhida no 5o dia, ainda com medicação,
terminando obviamente na manhã seguinte. Partindo de níveis
elevados a redução dos 17-CS a níveis normais define
a resposta e caracteriza patologia funcional supra-renal. Nos ítens
4 e 5 há uma resposta parcial porquanto resistem os 17-CS de origem
gonodal não responsivos à dexametasona.
* * *
|