Dosagens Hormonais em Ginecologia e Obstetrícia
© 1993
 
Ericsson Linhares
 
Docente livre da UFRJ
 
 
VI – CORTISOL ,  TESTOSTERONA  E  17-CETOSTERÓIDES
 
Parte I
  
  
    Existe um denominador comum ligando tais hormônios, qual seja a participação no metabolismo dos androgênios.  Da córtex supra-renal, sabemos, originam-se três grupos de corticóides com finalidade metabólica predominante, destinados a regular:  
a) glicídios;  
b) equilíbrio hidro-salino; 
c) anabolismo proteico.   

Os hormônios titulares na espécie humana são, respectivamente, cortisol, aldosterona e dehidroepiandrosterona (DHEA).  A hipo-função córtico-supra-renal é primária (Doença de Addison) ou secundária (Insuficiência Hipofisária ou Hipopituitarismo) e a disendocrinia sistêmica afasta o caso da área ginecológica.   

Entretanto, a hiper-função resulta em:   
a) Síndrome  de Cushing (elevação do cortisol);   
b) Síndrome de Conn (elevação da aldosterona); 
c) Síndrome Adreno-genital (elevação da dehidroepiandrosterona).   

A primeira e a terceira são tipicamente síndromes endócrino-ginecológicas, ocasionando nas mulheres distúrbios menstruais, esterilidade, infertilidade, hirsutismo e virilização, motivos pelos quais em frequência elevada a primeira consulta é ao ginecologista.  

    Em condições fisiológicas o organismo feminino encerra androgênios no ovário (androstenodiona e testosterona) como simples precursores da síntese de estrogênios, e na supra-renal o principal anabolisante (DHEA) é, em verdade, um androgênio.  Considerando tal peculiaridade, não se pode falar em hipo ou hiper-função.  Melhor será definirmos os desvios para mais dos androgênios na mulher com o rótulo de Disfunção Androgênica, exteriorizada, além de distúrbios da função ovariana em graus diversos, por quadros que vão do hirsutismo leve à franca virilização.  Sua propedêutica envolve a dosagem dos três hormônios agora estudados.  

    O cortisol é um esteróide com 21 átomos de carbono, 11-oxigenado, produzido na camada fascicular da córtex supra-renal, e transportado no sangue por uma carreadora específica, CBG ou transcortina.  Dependendo do estímulo hipofisário pelo hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) exibe um ritmo circadiano, com valores mais elevados de manhã e mais baixos nas proximidades da meia-noite.  

    A testosterona é o principal androgênio (C-19), produzida sobretudo no testículo.  No ovário, representa (junto com outro C-19, a androstenodiona) simples etapa intermediária na síntese do estradiol e da estrona, respectivamente.  Vale lembrar que a córtex supra-renal não secreta testosterona, excetuando-se raras variedades de tumores funcionantes, porém sua secreção diária de DHEA é da ordem de 10 mg.  

    Os 17-cetosteróides (17-CS) são esteróides C-19 com uma função cetona no carbono 17, oriundos do metabolismo dos androgênios, e excretados na urina.  A existência de precursores androgênicos na córtex supra-renal e na gônada confere a este grupo uma posição notória, que pode ser útil na propedêutica.  Esta é a razão de ter sido conservada a dosagem urinária dos 17-CS em um grupo mínimo de investigação hormonal em ginecologia, todas as demais sendo no sangue.  

  
  

PRINCIPAIS  ANDROGÊNIOS  NO  SEXO  FEMININO
 
 

 
 

Valores Normais  

Com o material que utilizamos, são os seguintes os valores normais no plasma (sangue colhido com EDTA):  
  

Cortisol  (independente de sexo) – manhã: 70 a 250 ng/ml  
                                                         tarde:   20 a 90 ng/ml.  

Testosterona – 0,1 a 1,0 ng/ml.  
                          Afim de situar a proporção de aumento em casos patológicos vale  
                          lembrar que no homem normal a faixa é de 4 a 9 ng/ml.  

17-cetosteróides urinários – para adultos normais:  
                          sexo masculino:  13 mg/24h (amplitude 11 a 15)  
                          sexo feminino:    7,5 mg/24h (amplitude 5 a 10)  
  

    Atribui-se à participação da testosterona testicular a maior taxa masculina, considerando-se de pequena monta os precursores ovarianos.  Todavia, é forçoso reconhecer que muitas vezes uma dosagem isolada de 17-CS não permite reconhecer o sexo, posto que os tipos constitucionais de supra-renal e gônoda em certos indivíduos levam a uma verdadeira interpenetração dos valores acima.  Notar que tal não acontece com a testosterona, cujo valor máximo no sexo feminino (1,0 ng/ml) é suficientemente distante do valor mínimo no sexo masculino (4,0 ng/ml).  

    Cortisol, testosterona e 17-cetosteróides não mostram qualquer variação regular durante o ciclo menstrual e podem, portanto, ser titulados em qualquer dia.  Quando se faz o perfil hormonal do ciclo, assim como associamos a prolactina à progesterona no 23o dia do ciclo, sugerimos a dosagem da testosterona junto a FSH, LH, E2 (12o, 14o ou 16o dias).  

  

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Progesterona Cortisol Parte II
 
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